A evolução da sociedade islâmica foi
caracterizada por um estreito vínculo entre o Estado e a religião. Os preceitos
do islamismo dominaram todas as instituições, inclusive as relacionadas
diretamente ao governo e à administração. Há Estados muçulmanos considerados
seculares (sem vínculo direto com a religião), mas a maior parte do mundo
muçulmano é dominada por um sistema em que se confundem as leis administrativas
e religiosas.
Em tais sociedades teve crescimento
exponencial o fenômeno do fundamentalismo. O fundamentalismo é marcado pela
defesa intransigente dos fundamentos de uma determinada crença, seja ela de natureza religiosa ou política. Ele tem a
convicção de que a sociedade moderna quer destruir seu modo de vida e, por
isso, é seu inimigo principal. No caso específico das sociedades islâmicas, o
avanço do fundamentalismo representou o recrudescimento do extremismo e do
radicalismo em relação aos temas que se relacionam com a questão do governo e
do controle geral da sociedade.
Os fundamentalistas islâmicos têm como
principal objetivo a consolidação da sociedade sob os critérios puramente
religiosos. A lei principal não seria a do Estado político e sim a Sharia,
uma coletânea onde estão as revelações recebidas pelo profeta Maomé. Tal
conjunto de leis seria válido para controlar todos os aspectos da vida dos
muçulmanos, mesmo os detalhes minúsculos da vida diária. As leis do Estado, se
existissem, deveriam tão somente reproduzir os preceitos religiosos, ou seja,
não deveriam prevalecer sobre as regras da religião. O Alcorão deveria ser
visto como fonte de orientação de toda a vida humana. Os fundamentalistas
adotam os preceitos do salafismo (palavra vem de salaf, que em árabe quer dizer antepassado devoto). Os verdadeiros
crentes, segundo os salafistas, deveriam imitar as práticas e crenças das
primeiras gerações do Islã, interpretando o Alcorão ao pé da letra. Até mesmo o vestuário e o uso da barba
deveriam ser como no tempo de Maomé e de seus primeiros seguidores.
Para Samuel Huntington, autor do famoso livro O
Choque de Civilizações, os novos conflitos mundiais serão provocados pela
incompatibilidade entre culturas ou civilizações. O seu principal argumento é o
crescimento do fenômeno do fundamentalismo islâmico, o qual prega, entre outras
coisas, a guerra incessante contra os modelos ocidentais. Para os
fundamentalistas, os muçulmanos teriam que rejeitar a cultura ocidental para
garantir a pureza do seu modo de vida. Para os mais radicais, não bastaria
rejeitar o modelo ocidental, seria preciso lutar contra ele e vencê-lo.
Vários grupos ou facções (alguns se
constituíram até como partidos políticos) cresceram sob a égide do
fundamentalismo islâmico. Tiveram em comum o extremismo religioso, com uso de
ações terroristas, mas se diferenciaram no tocante aos objetivos. O Hamas (na
Palestina) e o Hezbollah (no Líbano) são grupos que têm uma luta localizada,
restrita aos seus países de origem. A Al Qaeda, por sua vez, tem como objetivo
concretizar uma comunidade muçulmana universal e, por isso, age em todos os
países islâmicos declarando a hijad, a guerra santa contra os inimigos.
Bin Laden, o grande impulsionador da Al Qaeda, considerava o Ocidente, em
especial os Estados Unidos, como o grande inimigo a ser destruído para se
conseguir a unidade do Islã. Considerada uma espécie de “multinacional do
terrorismo”, a Al Qaeda criou células terroristas no Oriente Médio, na África e
na Ásia. Destacam-se, entre estas “filiais” da Al Qaeda, a facção AQPA (Al
Qaeda na Península Arábica), que age no Iêmen, e a Jabhat Al-Nusra, que
participa da guerra na Síria contra o governante Bashar Al-Assad.
Outros grupos extremistas se disseminaram em
diversas partes do mundo. Na África, o terrorismo se espalhou graças à Al Qaeda
no Magreb Islâmico (AQMI), ao Boko Haram (que age na Nigéria e em Camarões) e
Al Shabaab (age na Somália). No norte da África agem fortes grupos extremistas
principalmente na Líbia. No Afeganistão e no Paquistão a ameaça aos governos
vem da ação do Talibã. No Extremo Oriente, ainda age o grupo fundamentalista do
Abu Sayaff, embora tenha sofrido uma grande repressão do governo filipino nos
últimos anos. Na Rússia, o movimento fundamentalista confunde-se com a luta
pela independência, como ocorre na Chechênia e no Daguestão. Na Ásia Central, a
ação dos extremistas islâmicos é motivo de grande preocupação para os governos
de seus países.
Outro grupo fundamentalista que teve grande
desenvolvimento nos últimos anos foi o Estado Islâmico. Criado no Iraque por
antigos baathistas (apoiadores do partido Baath, de Saddam Hussein) e tendo, no
princípio, aliados na facção Al-Qaeda, o Estado Islâmico (também conhecido por
ISIS, ISIL ou Daesh) conquistou muitos territórios no Iraque e na Síria no ano
de 2014. Abu Bakr Al-Baghdadi, seu líder, pregava a criação de um Califado na
região e a formação de uma sociedade baseada na pureza ideológica e nas
tradições do profeta Maomé. Seus ideólogos argumentavam que os muçulmanos
tinham a obrigação de fazer a hijrah
(mudança para os locais históricos do Islã) e a jihad para expulsar exércitos conquistadores e de ocupação de suas
terras sagradas. Eles sempre se referiam a um hadith (declaração)
atribuído ao profeta sobre uma batalha no fim dos tempos entre muçulmanos e
cristãos e sobre a criação de um Califado. Iraque e Síria seriam as sedes do
novo Estado porque foram locais de nascimento e morte de muitos companheiros do
profeta.
O Estado Islâmico recebeu o apoio de muitos
fanáticos em diversas partes do mundo, os quais deixaram seus países de origem
e foram para o campo de batalha no Oriente Médio para participar da formação do
novo Estado. O treinamento dos extremistas do EI, segundo o relato de
jornalistas, era caracterizado por forte preparação militar (com curso de
guerrilhas) e os combatentes passavam por uma completa exaustão física,
psicológica e moral.
Quando conquistaram territórios, os fundamentalistas
do EI logo trataram de pôr em prática o modelo de Estado que desejavam.
Implantaram a lei da sharia,
determinando os detalhes da conduta diária das populações dominadas. Os hábitos
religiosos e, até mesmo, o vestuário e os gostos individuais passaram a ser
monitorados. Se o EI tinha métodos extremos para controlar as populações, não
se pode negar que ele também se esforçava para garantir governança e
fornecimento de serviços básicos, garantindo ordem e segurança. O Estado
Islâmico era garantido pelos ganhos com o petróleo e pelos donativos e impostos
cobrados.
Os grupos fundamentalistas usam o terrorismo
como instrumento de conquista do poder. Promovem atentados em todas as partes
do mundo, principalmente nas nações consideradas mais agressivas em relação aos
muçulmanos. Além do ataque a prédios e centros urbanos, bem como a refinarias e
indústrias, os terroristas destroem rodovias, estações de metrô e, até mesmo,
invadem escolas. O uso do sequestro passou a ser rotineiro entre os
extremistas. O Estado Islâmico e a Al Qaeda passaram a usar as redes sociais
modernas para propagandear o terror, mostrando imagens de suas decapitações e
execuções.
O crescimento do fundamentalismo islâmico tem
relação direta com a consolidação de uma grande rivalidade entre os próprios
muçulmanos. Há duas fortes correntes no Islã. A maioria dos muçulmanos segue o
sunismo, o qual acredita que o verdadeiro crente é aquele que segue os
princípios religiosos da suna (exemplo do profeta) e não aceita quaisquer
mudanças das normas, como as que determinam quem deve manter o controle sobre
os fiéis. O governo dos muçulmanos – o
Califado – não poderia ser monopolizado pelos descendentes do profeta, como
enfatizavam os seguidores de Ali, o sobrinho de Maomé. Esta corrente passou a
ser chamada de xiismo. Para os sunitas extremistas, o xiismo era uma corrente
de apóstatas, o primeiro inimigo a ser combatido e era visto também como o
grande perigo, a cobra escondida, o escorpião inteligente. Para se ter uma
ideia do antagonismo, para os sunitas o xiismo passou a ser visto como um
perigo maior do que o representado pelos americanos e isso foi defendido por
líderes radicais como Zarqawi, o impulsionador da Al Qaeda no Iraque. Ser
sunita, porém, não significa ser fundamentalista. Há fundamentalistas também na
versão xiita, como se observou em relação ao caso do Irã e do Líbano, que
assistiram a vitória de uma revolução islâmica (no caso do primeiro) e a
disseminação de facções terroristas e belicosas (no caso do segundo).
Hoje a luta entre xiitas e sunitas é
coordenada por duas potências regionais: Irã e Arábia Saudita. O Irã é a
principal nação xiita e tem como aliados os rebeldes houthis do Iêmen, o
governo xiita do Iraque, o governo sírio de Bashar al-Assad e a facção libanesa
do Hezbollah. A Arábia Saudita é a
pátria do wahabismo, o qual considera o xiismo herege e impuro. Sauditas
promulgam sua extremista versão wahhabi–salafista do Islã por meio de escolas
corânicas, mesquitas, clérigos e outros meios disponíveis. Com a sua colossal riqueza
advinda do petróleo, a monarquia saudita criou, destarte, uma verdadeira
ditadura religiosa sunita e passou a se considerar guardiã dos principais
centros de peregrinação dos muçulmanos.
O conflito direto entre sunitas e xiitas é a realidade de
países como Iraque (onde uma autêntica guerra civil devastou o país até
recentemente), Bahrein (onde a maioria xiita não conseguiu derrubar o governo
sunita durante a chamada Primavera Árabe) e a Arábia Saudita (onde a minoria
xiita residente no leste do reino foi alvo de grande repressão realizada por
forças do governo).
Para alguns especialistas, o fundamentalismo
islâmico tem crescido mesmo nos países ocidentais, onde contam com células e
facções terroristas. Um caso a ser estudado detidamente é do da França, país
onde foram realizados vários atentados. Segundo um articulista da revista Le
Monde Diplomatique, muitos muçulmanos sentem-se apartados nas sociedades
europeias e não se consideram franceses de pleno direito. Consideraram
humilhante o fato das autoridades francesas terem nomeado um não muçulmano para
dirigir a fundação dirigida ao Islã no país, o que parece um processo de
infantilização dos muçulmanos. Para muitos radicais fundamentalistas, os
recentes atentados – incluindo o que vitimou a revista Charlie Hebdo –
aparecem como uma vingança a ser exercida contra a França e os valores europeus
e ocidentais.
A postura dos Estados Unidos é
um fator relevante para o futuro do fundamentalismo islâmico. Para alguns
especialistas, o fato de ser a principal – ou mesmo a única – potência no mundo
contemporâneo torna a nação americana um protagonista na luta contra a ameaça
terrorista e um alvo direto a ser combatido pelos fundamentalistas. É um
combate assimétrico entre uma grande poder militar (praticamente invencível num
confronto direto) e um conjunto de facções que usam táticas eficientes de
disseminação da violência e do terror. Para outros estudiosos de Política
Internacional, essa assimetria não significará o fim do conflito e as ações
americanas contribuirão cada vez mais para o recrudescimento do extremismo. Se
os Estados Unidos continuarem “empunhando a marreta”, afirma um estudioso
americano, o provável efeito é o crescimento de um jihadismo ainda mais
violento, com apelo amplo entre a população dos países muçulmanos. De fato, a
doutrina americana de combate ao terrorismo foi responsável por fortes ataques
dirigidos por drones contra células fundamentalistas, vitimando, porém, grande
parte de civis em áreas de conflito. Paquistão e Iêmen foram os países que mais
sofreram com tais ataques.
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