domingo, 18 de agosto de 2019

Fundamentalismo islâmico: conflito de civilizações, jihad e terrorismo



A evolução da sociedade islâmica foi caracterizada por um estreito vínculo entre o Estado e a religião. Os preceitos do islamismo dominaram todas as instituições, inclusive as relacionadas diretamente ao governo e à administração. Há Estados muçulmanos considerados seculares (sem vínculo direto com a religião), mas a maior parte do mundo muçulmano é dominada por um sistema em que se confundem as leis administrativas e religiosas.
Em tais sociedades teve crescimento exponencial o fenômeno do fundamentalismo. O fundamentalismo é marcado pela defesa intransigente dos fundamentos de uma determinada crença, seja ela de   natureza religiosa ou política. Ele tem a convicção de que a sociedade moderna quer destruir seu modo de vida e, por isso, é seu inimigo principal. No caso específico das sociedades islâmicas, o avanço do fundamentalismo representou o recrudescimento do extremismo e do radicalismo em relação aos temas que se relacionam com a questão do governo e do controle geral da sociedade.
Os fundamentalistas islâmicos têm como principal objetivo a consolidação da sociedade sob os critérios puramente religiosos. A lei principal não seria a do Estado político e sim a Sharia, uma coletânea onde estão as revelações recebidas pelo profeta Maomé. Tal conjunto de leis seria válido para controlar todos os aspectos da vida dos muçulmanos, mesmo os detalhes minúsculos da vida diária. As leis do Estado, se existissem, deveriam tão somente reproduzir os preceitos religiosos, ou seja, não deveriam prevalecer sobre as regras da religião. O Alcorão deveria ser visto como fonte de orientação de toda a vida humana. Os fundamentalistas adotam os preceitos do salafismo (palavra vem de salaf, que em árabe quer dizer antepassado devoto). Os verdadeiros crentes, segundo os salafistas, deveriam imitar as práticas e crenças das primeiras gerações do Islã, interpretando o Alcorão ao pé da letra.  Até mesmo o vestuário e o uso da barba deveriam ser como no tempo de Maomé e de seus primeiros seguidores.                           
Para Samuel Huntington, autor do famoso livro O Choque de Civilizações, os novos conflitos mundiais serão provocados pela incompatibilidade entre culturas ou civilizações. O seu principal argumento é o crescimento do fenômeno do fundamentalismo islâmico, o qual prega, entre outras coisas, a guerra incessante contra os modelos ocidentais. Para os fundamentalistas, os muçulmanos teriam que rejeitar a cultura ocidental para garantir a pureza do seu modo de vida. Para os mais radicais, não bastaria rejeitar o modelo ocidental, seria preciso lutar contra ele e vencê-lo. 
Vários grupos ou facções (alguns se constituíram até como partidos políticos) cresceram sob a égide do fundamentalismo islâmico. Tiveram em comum o extremismo religioso, com uso de ações terroristas, mas se diferenciaram no tocante aos objetivos. O Hamas (na Palestina) e o Hezbollah (no Líbano) são grupos que têm uma luta localizada, restrita aos seus países de origem. A Al Qaeda, por sua vez, tem como objetivo concretizar uma comunidade muçulmana universal e, por isso, age em todos os países islâmicos declarando a hijad, a guerra santa contra os inimigos. Bin Laden, o grande impulsionador da Al Qaeda, considerava o Ocidente, em especial os Estados Unidos, como o grande inimigo a ser destruído para se conseguir a unidade do Islã. Considerada uma espécie de “multinacional do terrorismo”, a Al Qaeda criou células terroristas no Oriente Médio, na África e na Ásia. Destacam-se, entre estas “filiais” da Al Qaeda, a facção AQPA (Al Qaeda na Península Arábica), que age no Iêmen, e a Jabhat Al-Nusra, que participa da guerra na Síria contra o governante Bashar Al-Assad.    
Outros grupos extremistas se disseminaram em diversas partes do mundo. Na África, o terrorismo se espalhou graças à Al Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), ao Boko Haram (que age na Nigéria e em Camarões) e Al Shabaab (age na Somália). No norte da África agem fortes grupos extremistas principalmente na Líbia. No Afeganistão e no Paquistão a ameaça aos governos vem da ação do Talibã. No Extremo Oriente, ainda age o grupo fundamentalista do Abu Sayaff, embora tenha sofrido uma grande repressão do governo filipino nos últimos anos. Na Rússia, o movimento fundamentalista confunde-se com a luta pela independência, como ocorre na Chechênia e no Daguestão. Na Ásia Central, a ação dos extremistas islâmicos é motivo de grande preocupação para os governos de seus países.
Outro grupo fundamentalista que teve grande desenvolvimento nos últimos anos foi o Estado Islâmico. Criado no Iraque por antigos baathistas (apoiadores do partido Baath, de Saddam Hussein) e tendo, no princípio, aliados na facção Al-Qaeda, o Estado Islâmico (também conhecido por ISIS, ISIL ou Daesh) conquistou muitos territórios no Iraque e na Síria no ano de 2014. Abu Bakr Al-Baghdadi, seu líder, pregava a criação de um Califado na região e a formação de uma sociedade baseada na pureza ideológica e nas tradições do profeta Maomé. Seus ideólogos argumentavam que os muçulmanos tinham a obrigação de fazer a hijrah (mudança para os locais históricos do Islã) e a jihad para expulsar exércitos conquistadores e de ocupação de suas terras sagradas. Eles sempre se referiam a um hadith (declaração) atribuído ao profeta sobre uma batalha no fim dos tempos entre muçulmanos e cristãos e sobre a criação de um Califado. Iraque e Síria seriam as sedes do novo Estado porque foram locais de nascimento e morte de muitos companheiros do profeta. 
O Estado Islâmico recebeu o apoio de muitos fanáticos em diversas partes do mundo, os quais deixaram seus países de origem e foram para o campo de batalha no Oriente Médio para participar da formação do novo Estado. O treinamento dos extremistas do EI, segundo o relato de jornalistas, era caracterizado por forte preparação militar (com curso de guerrilhas) e os combatentes passavam por uma completa exaustão física, psicológica e moral.
Quando conquistaram territórios, os fundamentalistas do EI logo trataram de pôr em prática o modelo de Estado que desejavam. Implantaram a lei da sharia, determinando os detalhes da conduta diária das populações dominadas. Os hábitos religiosos e, até mesmo, o vestuário e os gostos individuais passaram a ser monitorados. Se o EI tinha métodos extremos para controlar as populações, não se pode negar que ele também se esforçava para garantir governança e fornecimento de serviços básicos, garantindo ordem e segurança. O Estado Islâmico era garantido pelos ganhos com o petróleo e pelos donativos e impostos cobrados.
Os grupos fundamentalistas usam o terrorismo como instrumento de conquista do poder. Promovem atentados em todas as partes do mundo, principalmente nas nações consideradas mais agressivas em relação aos muçulmanos. Além do ataque a prédios e centros urbanos, bem como a refinarias e indústrias, os terroristas destroem rodovias, estações de metrô e, até mesmo, invadem escolas. O uso do sequestro passou a ser rotineiro entre os extremistas. O Estado Islâmico e a Al Qaeda passaram a usar as redes sociais modernas para propagandear o terror, mostrando imagens de suas decapitações e execuções.   
O crescimento do fundamentalismo islâmico tem relação direta com a consolidação de uma grande rivalidade entre os próprios muçulmanos. Há duas fortes correntes no Islã. A maioria dos muçulmanos segue o sunismo, o qual acredita que o verdadeiro crente é aquele que segue os princípios religiosos da suna (exemplo do profeta) e não aceita quaisquer mudanças das normas, como as que determinam quem deve manter o controle sobre os fiéis.  O governo dos muçulmanos – o Califado – não poderia ser monopolizado pelos descendentes do profeta, como enfatizavam os seguidores de Ali, o sobrinho de Maomé. Esta corrente passou a ser chamada de xiismo. Para os sunitas extremistas, o xiismo era uma corrente de apóstatas, o primeiro inimigo a ser combatido e era visto também como o grande perigo, a cobra escondida, o escorpião inteligente. Para se ter uma ideia do antagonismo, para os sunitas o xiismo passou a ser visto como um perigo maior do que o representado pelos americanos e isso foi defendido por líderes radicais como Zarqawi, o impulsionador da Al Qaeda no Iraque. Ser sunita, porém, não significa ser fundamentalista. Há fundamentalistas também na versão xiita, como se observou em relação ao caso do Irã e do Líbano, que assistiram a vitória de uma revolução islâmica (no caso do primeiro) e a disseminação de facções terroristas e belicosas (no caso do segundo).
Hoje a luta entre xiitas e sunitas é coordenada por duas potências regionais: Irã e Arábia Saudita. O Irã é a principal nação xiita e tem como aliados os rebeldes houthis do Iêmen, o governo xiita do Iraque, o governo sírio de Bashar al-Assad e a facção libanesa do Hezbollah. A Arábia Saudita  é a pátria do wahabismo, o qual considera o xiismo herege e impuro. Sauditas promulgam sua extremista versão wahhabi–salafista do Islã por meio de escolas corânicas, mesquitas, clérigos e outros meios disponíveis. Com a sua colossal riqueza advinda do petróleo, a monarquia saudita criou, destarte, uma verdadeira ditadura religiosa sunita e passou a se considerar guardiã dos principais centros de peregrinação dos muçulmanos.
O conflito direto entre sunitas e xiitas é a realidade de países como Iraque (onde uma autêntica guerra civil devastou o país até recentemente), Bahrein (onde a maioria xiita não conseguiu derrubar o governo sunita durante a chamada Primavera Árabe) e a Arábia Saudita (onde a minoria xiita residente no leste do reino foi alvo de grande repressão realizada por forças do governo).  
Para alguns especialistas, o fundamentalismo islâmico tem crescido mesmo nos países ocidentais, onde contam com células e facções terroristas. Um caso a ser estudado detidamente é do da França, país onde foram realizados vários atentados. Segundo um articulista da revista Le Monde Diplomatique, muitos muçulmanos sentem-se apartados nas sociedades europeias e não se consideram franceses de pleno direito. Consideraram humilhante o fato das autoridades francesas terem nomeado um não muçulmano para dirigir a fundação dirigida ao Islã no país, o que parece um processo de infantilização dos muçulmanos. Para muitos radicais fundamentalistas, os recentes atentados – incluindo o que vitimou a revista Charlie Hebdo – aparecem como uma vingança a ser exercida contra a França e os valores europeus e ocidentais.
A postura dos Estados Unidos é um fator relevante para o futuro do fundamentalismo islâmico. Para alguns especialistas, o fato de ser a principal – ou mesmo a única – potência no mundo contemporâneo torna a nação americana um protagonista na luta contra a ameaça terrorista e um alvo direto a ser combatido pelos fundamentalistas. É um combate assimétrico entre uma grande poder militar (praticamente invencível num confronto direto) e um conjunto de facções que usam táticas eficientes de disseminação da violência e do terror. Para outros estudiosos de Política Internacional, essa assimetria não significará o fim do conflito e as ações americanas contribuirão cada vez mais para o recrudescimento do extremismo. Se os Estados Unidos continuarem “empunhando a marreta”, afirma um estudioso americano, o provável efeito é o crescimento de um jihadismo ainda mais violento, com apelo amplo entre a população dos países muçulmanos. De fato, a doutrina americana de combate ao terrorismo foi responsável por fortes ataques dirigidos por drones contra células fundamentalistas, vitimando, porém, grande parte de civis em áreas de conflito. Paquistão e Iêmen foram os países que mais sofreram com tais ataques.

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