O fenômeno conhecido como globalização é
caracterizado pela falência do modelo no qual o Estado-Nação é o principal
centro do poder e das relações. Com a globalização, desenvolveram-se, de
maneira vertiginosa, o comércio e as relações internacionais, num processo
caracterizado pelo avanço das comunicações e das tecnologias. Previa-se o fim
dos Estados e do próprio nacionalismo.
Cada vez mais, porém, a permanência e, até
mesmo, o crescimento do nacionalismo têm sido as grandes características de
nosso tempo presente. Os povos, em todas as partes do mundo, não deixam de
seguir os ideais de formação de comunidades específicas e de garantia dos seus
direitos culturais e históricos. É verdade que, nestes dias de globalização, há
luta contra o Estado, mas ela tem como objetivo principal a criação de um outro
Estado ou sua reformulação, nunca a sua extinção. O nacionalismo mais extremado
pode levar ao separatismo.
Há uma estreita relação entre nacionalismo e
etnia. No continente africano, esse fenômeno é mais acentuado contribuindo para
a continuação do estado de tensão e, até mesmo, de guerra entre povos. As
nações africanas, no seu processo de independência, não conseguiram resolver as
questões étnicas e receberam como legado da colonização as contradições de um
modelo de Estado que não respeitava os territórios históricos de diversos
povos. O resultado foi a irrupção de inúmeros movimentos separatistas e guerras
civis.
Sangrentos conflitos por motivação étnica se
deram na Libéria e na Costa do Marfim. Ruanda e Burundi têm a história recente
manchada pelo conflito entre os tutsis e hutus, o qual provocou o genocídio de
1994. Atualmente República Democrática do Congo, República Centro-Africana,
Chade, Sudão e Sudão do Sul são marcados por intensos combates estimulados por
líderes tribais e religiosos. Na Etiópia, os oromos lutam pela afirmação e pelo
reconhecimento e, na sua luta, provocaram recentemente a queda do governo do
país.
Tais conflitos ainda não podem ser
considerados de natureza separatista, embora possam vir a sê-lo. O Sudão teve
recentemente uma guerra civil marcada pelo crescimento espantoso de um
movimento separatista e que ocasionou a formação de um novo país, justamente o
Sudão do Sul. Na África, movimentos claramente separatistas existem na região
de Cabinda (em Angola), em Casamance (Senegal) e região leste de Gana
(tentativa de secessão do povo ewe), mas não se transformaram em conflitos de grandes
proporções. O movimento separatista empreendido pela Frente Polisário conseguiu
a modificação do status da região do Saara Ocidental, mas o Marrocos não
aceita, até hoje, a perda desse território.
Na Ásia, conflitos étnicos podem ser vistos na
Malásia (hindus e chineses contra malaios), Sri Lanka (cingaleses contra os
tâmeis e minorias) e China (chineses contra uigures). No caso do Sri Lanka, os
tâmeis empreenderam uma guerra civil de cunho separatista contra o governo
cingalês, conflito que terminou em 2009. Na China, os uigures ainda hoje
reivindicam a separação da região de Xinjiang, mas esbarram em forte repressão
do governo. O ideal separatista e nacionalista está presente também por outros
motivos, principalmente de natureza religiosa. É o que ocorre, por exemplo, na
Índia (forte tensão entre muçulmanos e hindus), no Paquistão (onde províncias
como a de Waziristão e Baluchistão lutam por independência), nas Filipinas
(muçulmanos querem a independência de Mindanao), na Tailândia (muçulmanos querem
a separação da região sul do país) e em Mianmar (perseguição de budistas aos
rohyngias muçulmanos). No Quirguistão, há um conflito étnico entre quirguizes e
uzbeques, mas ainda não desembocou em conflito separatista.
Os separatistas armênios da região de
Nagorno-Karabakh (pertencente ao Azerbaijão) conseguiram a formação de um
governo provisório, o qual passou a ter estreitas relações com a Armênia. O
governo do Azerbaijão, porém, ainda não reconheceu tal independência. Uma
situação ainda mais complicada é a dos curdos que vivem em, pelo menos, quatro
países: Irã, Iraque, Turquia e Síria. O país onde há maior autonomia curda é o
Iraque, cuja província no norte, rica em petróleo, tem um governo muito
atuante, fonte de preocupações para o governo em Bagdá. Na Síria, foi formada,
durante a guerra civil, uma comunidade política curda no norte do país. Na
Turquia, o partido que busca a autonomia dos curdos (PKK) é alvo de grande
repressão. No Irã, a grande ameaça separatista não é representada pelos curdos
e sim por guerrilheiros da região de Khuzestan, rica em petróleo.
Na Europa, o nacionalismo tem se fortalecido
em muitos países, inclusive naqueles que ingressaram na União Europeia que, em
linhas gerais, surgiu como uma associação supranacional que afetou a soberania em diversos aspectos. Na atualidade, países
do Leste da Europa estão, cada vez mais, impondo barreiras em suas fronteiras
para impedir a entrada de “forasteiros”.
Uma análise mais meticulosa da recente história europeia constata a emergência
do nacionalismo como o fator principal da mudança do quadro político e
administrativo. A antiga Iugoslávia, por exemplo, se esfacelou nos anos 1990
por causa de intensos conflitos ocasionados pelo movimento nacionalista de
eslovenos, croatas e bósnios, os quais criaram seus próprios países. Ainda hoje
perdura um conflito de raízes nacionalistas na Península Balcânica, que opõe
habitantes do Kossovo (de origem albanesa) a sérvios, macedônios e
montenegrinos. A Sérvia não aceita, até hoje, a independência de sua antiga
província kossovar.
Outros povos europeus, que exigem autonomia
ou, até mesmo, a independência, não tiveram êxito. Os casos mais expressivos
são os dos bascos e catalães na Espanha, dos flamengos na Bélgica e dos
escoceses no Reino Unido. Na Rússia, a luta separatista das repúblicas do
Daguestão e da Chechênia já dura várias décadas. Na Ucrânia, o separatismo da
região leste (Donbass) motivou o início de uma guerra civil que ainda não
terminou. Os habitantes de Abkhazia e da Ossétia (territórios pertencentes
originalmente à Geórgia) conseguiram se desligar do seu país de origem, mas
seus novos Estados não são reconhecidos internacionalmente. Outro Estado não
reconhecido é da parte norte da ilha de Chipre, formado pelos turcos para
separar-se da parte grega.
Muitos destes movimentos separatistas foram
impulsionados pelo crescimento dos conflitos entre povos e etnias, como ocorreu
em outros continentes. Na Europa, há conflitos étnicos em vários países, embora
nem todos eles sejam marcados por extrema violência ou guerra civil, como os
que desencadearam a divisão iugoslava. O que ocorre, na realidade, é a
repressão contra minorias étnicas, as quais passaram a sofrer represálias e
foram desprovidas de direitos sociais ou políticos. É o caso dos húngaros em
diversos países do Leste Europeu. Ou dos russos na Moldávia, Letônia e Estônia.
Minorias húngaras pedem maior autonomia na Eslováquia e na Romênia.
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