terça-feira, 3 de setembro de 2019

Nacionalismos, separatismos e conflitos étnicos




O fenômeno conhecido como globalização é caracterizado pela falência do modelo no qual o Estado-Nação é o principal centro do poder e das relações. Com a globalização, desenvolveram-se, de maneira vertiginosa, o comércio e as relações internacionais, num processo caracterizado pelo avanço das comunicações e das tecnologias. Previa-se o fim dos Estados e do próprio nacionalismo.

Cada vez mais, porém, a permanência e, até mesmo, o crescimento do nacionalismo têm sido as grandes características de nosso tempo presente. Os povos, em todas as partes do mundo, não deixam de seguir os ideais de formação de comunidades específicas e de garantia dos seus direitos culturais e históricos. É verdade que, nestes dias de globalização, há luta contra o Estado, mas ela tem como objetivo principal a criação de um outro Estado ou sua reformulação, nunca a sua extinção. O nacionalismo mais extremado pode levar ao separatismo.

Há uma estreita relação entre nacionalismo e etnia. No continente africano, esse fenômeno é mais acentuado contribuindo para a continuação do estado de tensão e, até mesmo, de guerra entre povos. As nações africanas, no seu processo de independência, não conseguiram resolver as questões étnicas e receberam como legado da colonização as contradições de um modelo de Estado que não respeitava os territórios históricos de diversos povos. O resultado foi a irrupção de inúmeros movimentos separatistas e guerras civis. 

Sangrentos conflitos por motivação étnica se deram na Libéria e na Costa do Marfim. Ruanda e Burundi têm a história recente manchada pelo conflito entre os tutsis e hutus, o qual provocou o genocídio de 1994. Atualmente República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Chade, Sudão e Sudão do Sul são marcados por intensos combates estimulados por líderes tribais e religiosos. Na Etiópia, os oromos lutam pela afirmação e pelo reconhecimento e, na sua luta, provocaram recentemente a queda do governo do país.  

Tais conflitos ainda não podem ser considerados de natureza separatista, embora possam vir a sê-lo. O Sudão teve recentemente uma guerra civil marcada pelo crescimento espantoso de um movimento separatista e que ocasionou a formação de um novo país, justamente o Sudão do Sul. Na África, movimentos claramente separatistas existem na região de Cabinda (em Angola), em Casamance (Senegal) e região leste de Gana (tentativa de secessão do povo ewe), mas não se transformaram em conflitos de grandes proporções. O movimento separatista empreendido pela Frente Polisário conseguiu a modificação do status da região do Saara Ocidental, mas o Marrocos não aceita, até hoje, a perda desse território. 

Na Ásia, conflitos étnicos podem ser vistos na Malásia (hindus e chineses contra malaios), Sri Lanka (cingaleses contra os tâmeis e minorias) e China (chineses contra uigures). No caso do Sri Lanka, os tâmeis empreenderam uma guerra civil de cunho separatista contra o governo cingalês, conflito que terminou em 2009. Na China, os uigures ainda hoje reivindicam a separação da região de Xinjiang, mas esbarram em forte repressão do governo. O ideal separatista e nacionalista está presente também por outros motivos, principalmente de natureza religiosa. É o que ocorre, por exemplo, na Índia (forte tensão entre muçulmanos e hindus), no Paquistão (onde províncias como a de Waziristão e Baluchistão lutam por independência), nas Filipinas (muçulmanos querem a independência de Mindanao), na Tailândia (muçulmanos querem a separação da região sul do país) e em Mianmar (perseguição de budistas aos rohyngias muçulmanos). No Quirguistão, há um conflito étnico entre quirguizes e uzbeques, mas ainda não desembocou em conflito separatista.

Os separatistas armênios da região de Nagorno-Karabakh (pertencente ao Azerbaijão) conseguiram a formação de um governo provisório, o qual passou a ter estreitas relações com a Armênia. O governo do Azerbaijão, porém, ainda não reconheceu tal independência. Uma situação ainda mais complicada é a dos curdos que vivem em, pelo menos, quatro países: Irã, Iraque, Turquia e Síria. O país onde há maior autonomia curda é o Iraque, cuja província no norte, rica em petróleo, tem um governo muito atuante, fonte de preocupações para o governo em Bagdá. Na Síria, foi formada, durante a guerra civil, uma comunidade política curda no norte do país. Na Turquia, o partido que busca a autonomia dos curdos (PKK) é alvo de grande repressão. No Irã, a grande ameaça separatista não é representada pelos curdos e sim por guerrilheiros da região de Khuzestan, rica em petróleo.

Na Europa, o nacionalismo tem se fortalecido em muitos países, inclusive naqueles que ingressaram na União Europeia que, em linhas gerais, surgiu como uma associação supranacional que afetou a soberania  em diversos aspectos. Na atualidade, países do Leste da Europa estão, cada vez mais, impondo barreiras em suas fronteiras para impedir a entrada de  “forasteiros”. Uma análise mais meticulosa da recente história europeia constata a emergência do nacionalismo como o fator principal da mudança do quadro político e administrativo. A antiga Iugoslávia, por exemplo, se esfacelou nos anos 1990 por causa de intensos conflitos ocasionados pelo movimento nacionalista de eslovenos, croatas e bósnios, os quais criaram seus próprios países. Ainda hoje perdura um conflito de raízes nacionalistas na Península Balcânica, que opõe habitantes do Kossovo (de origem albanesa) a sérvios, macedônios e montenegrinos. A Sérvia não aceita, até hoje, a independência de sua antiga província kossovar. 

Outros povos europeus, que exigem autonomia ou, até mesmo, a independência, não tiveram êxito. Os casos mais expressivos são os dos bascos e catalães na Espanha, dos flamengos na Bélgica e dos escoceses no Reino Unido. Na Rússia, a luta separatista das repúblicas do Daguestão e da Chechênia já dura várias décadas. Na Ucrânia, o separatismo da região leste (Donbass) motivou o início de uma guerra civil que ainda não terminou. Os habitantes de Abkhazia e da Ossétia (territórios pertencentes originalmente à Geórgia) conseguiram se desligar do seu país de origem, mas seus novos Estados não são reconhecidos internacionalmente. Outro Estado não reconhecido é da parte norte da ilha de Chipre, formado pelos turcos para separar-se da parte grega.

Muitos destes movimentos separatistas foram impulsionados pelo crescimento dos conflitos entre povos e etnias, como ocorreu em outros continentes. Na Europa, há conflitos étnicos em vários países, embora nem todos eles sejam marcados por extrema violência ou guerra civil, como os que desencadearam a divisão iugoslava. O que ocorre, na realidade, é a repressão contra minorias étnicas, as quais passaram a sofrer represálias e foram desprovidas de direitos sociais ou políticos. É o caso dos húngaros em diversos países do Leste Europeu. Ou dos russos na Moldávia, Letônia e Estônia. Minorias húngaras pedem maior autonomia na Eslováquia e na Romênia.                                                              

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